Vivemos um paradoxo em relação à terceira idade. Se por um lado o número de idosos nunca esteve tão elevado, por outro lado nossos “velhos” de hoje não encontram voz. Parem e observem. Em uma reunião de família, em um evento social, no local de trabalho. Basta um idoso começar a falar, que a impaciência nas feições dos mais jovens salta aos olhos. As falas lentas e arrastadas, muitas vezes acompanhadas pelo relato de histórias que ganharam vida décadas atrás, externam o pouco interesse da atual geração pela experiência de vida dos idosos; rapidamente interrompem a conversa ou mergulham em seus aparatos eletrônicos inseparáveis (extensões do corpo).

Há que se considerar, por outro lado, que há em curso uma mudança radical no perfil dos idosos recém-chegados à terceira idade, e que tende a piorar. Estamos perdendo os narradores da vida. Muitos hoje envelhecem sem que tenham adquiridos sabedoria e vivências capazes de serem transmitidas aos mais jovens. São adultos produtos do meio estéril e alienante e que se tornam adultos envelhecidos fisicamente, e só. Os cabelos grisalhos pouco a pouco vão perdendo o sinônimo de experiência de vida e sabedoria, e cada vez menos os mais experientes despertam o interesse dos mais jovens, esses que já não estão tão interessados no outro. O idoso que plantava uma árvore em cuja sombra uma criança repousaria e de cuja fruta se alimentaria está desaparecendo.

E o resultado advindo desse paradoxo é um só: o estado de depressão global da contemporaneidade que atinge a todos: jovens e idosos.

Os olhos da sociedade se voltam para a epidemia de solidão, depressão e suicídio entre os mais jovens e entre os adultos, e temas como depressão e suicídio ganham cada dia mais espaço nos meios de comunicação. No entanto,  nossos idosos, marginalizados em uma sociedade que descarta aquele que não produz, não escapam às estatísticas.  O Mapa da Violência de 2014, organizado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, aponta que, acima dos 60 anos, há oito suicídios por 100 mil habitantes, taxa maior que a registrada entre outros grupos etários. Entre 1980 e 2012 — período avaliado no estudo —, houve crescimento de 215,7% no número de casos entre os idosos. Da mesma forma que ocorre com os mais jovens, os homens são as principais vítimas. Aos 75 anos, de acordo com o Ministério da Saúde, a razão é de oito a 12 suicídios masculinos por um feminino.

Aproximando nosso olhar para o âmbito familiar, é comum nos depararmos com histórias de famílias que negligenciam a depressão no idoso, revestindo-a com um olhar “normalizador”, como se o silêncio e a apatia do mesmo fossem características naturais do envelhecimento. Muitas vezes esse senhor ou essa senhora, em seu silêncio que não incomoda , padece de um quadro depressivo que poderia ser tratado com medicação, terapia ocupacional, arte, música, socialização e psicoterapia; ou seja, com um olhar mais atento e sensível. Ademais, a depressão eleva o índice de mortalidade advindo das doenças crônicas, tais como a Hipertensão e o Diabetes, doenças legitimadas e tratadas – que em geral ganham o olhar atento dos filhos e filhas – mas que se descompensam diante de um quadro depressivo muitas vezes negligenciado.

No entanto, os dados acerca da depressão na terceira idade mostram, e não poderia ser diferente, que o número de suicídios atinge em sua maioria o idoso solitário, aquele que não possui familiares continentes e que passa a maior parte de suas horas em profunda solidão. De modo geral o idoso deprimido cuidado pelas famílias comete menos suicídio, falecendo mais em consequência de suas doenças crônicas agravadas pelo quadro depressivo. O tratamento da depressão no idoso reduz o índice de mortalidade, seja por doenças crônicas ou por suicídio.

Concluo o presente artigo com um convite à reflexão.

O suicídio do idoso – pessoa que resistiu e atravessou diversas agruras ao longo de anos em sua vida, vivenciando na pele perdas, doenças, violências e dificuldades as mais diversas, e que ao atingir a velhice atenta contra a própria vida – leva-me a pensar em uma espécie de atestado de falência de nosso modelo de sociedade.

Precisamos nos debruçar sobre esses números alarmantes e que nos dizem muito mais do que simplesmente que a depressão na terceira idade aumentou e que precisamos levar nossos idosos ao psiquiatra. Cabe a todos um olhar ético em direção às relações humanas e ao modelo de sociedade vigente – egocentrada, narcisista e materialista -, que despreza o outro, justamente o outro que faz de mim um “eu”. Sem o outro não há um “eu”. O problema nasce quando esse “eu” anda inflado e soberbo, tratando o outro como objeto, como meio para os próprios fins.

Em tempos de totalitarismo do ego, estamos nos perdendo uns dos outros e assim nos perdendo a todos: crianças, jovens, adultos e claro, idosos.

Dr. Genisson Angelo Guimarães

Médico de família, psiquiatra e nutrólogo.
Graduado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia Clínica.
Pós-graduado em Psicologia Humanista.
Escritor, autor dos livros “A borboleta amarela e o mendigo” e “Contos e Encontros, entre a essência e a realidade”.