O uso indiscriminado de medicações aliado à excessiva solicitação de exames complementares são uma realidade mais do que conhecida nos dias de hoje. Pode até parecer estranho para você que está lendo, mas esses ‘’excessos’’ não são sinônimo de bom cuidado, e tem grande potencial de prejuízo à saúde. Para se ter uma ideia da importância de se refletir sobre esse tema, a chamada iatrogênica clínica – corresponde aos danos causados por intervenções médicas – cresceu tanto, que já representa a terceira maior causa de morte nos Estados Unidos, de acordo com um estudo divulgado pelo Journal of the American Medical Association (JAMA), periódico de grande circulação e relevância no meio médico.

Prevenção Quartenária. Você já ouviu falar?

O termo foi criado pelo médico de família belga Marc Jamoulle em 1999, e tem como definição a “ação tomada para identificar um paciente sob o risco de medicalização excessiva, para protegê-lo de novas invasões, e para sugerir intervenções eticamente aceitáveis”.  Ainda que o nome prevenção quaternária (P4) seja relativamente novo, ele retoma um princípio fundamental e milenar da bioética médica: “primeiro não prejudicar” ou como dito por Hipócrates em latim, ”primum non nocere”. Pode ser traduzido – para além da linguagem técnica – como a simples prevenção de sobrediagnóstico ou excesso de remédios, principalmente quando os riscos e efeitos colaterais da intervenção superam suas vantagens.

Um bom exemplo do que estamos falando é um paciente idoso em uso de medicação para controle de pressão que apresenta fraqueza, tonturas e aumento no número de quedas no seu dia-a-dia. Quando se trata de um ser humano na terceira idade – assim como qualquer outro – vale especialmente individualizar a conduta de acordo com o seu contexto social, emocional, familiar e econômico. Estamos falando de muito mais do que tratar doenças ou analisar isoladamente os números dos exames. Propomos aqui, uma medicina humanizada, que observa o paciente na sua singularidade e sugere soluções viáveis. Tudo mediado pelo bom senso dos especialistas e embasamento científico atualizado, claro.

Outro objetivo da prevenção quaternária é construir a autonomia dos usuários por meio de informações necessárias e suficientes para tomarem as decisões em total parceria com médico, sem falsas expectativas, conhecendo as o lado bom e o ruim de cada proposta. Também faz parte do trabalho do profissional atento, praticar a escuta ativa e empática, evitando “doencificar” todo e qualquer sintoma que não se enquadre dentro de um quadro maior. Quando o paciente entende o que está sendo feito, ele fica mais confiante no seu processo de cuidado e é capaz de se co-responsabilizar pela própria saúde. Essa postura aumenta as chances do tratamento ser verdadeiramente seguido e, portanto, ter mais sucesso.

É importante dizer que esse conceito não significa negligenciar sintomas ou desvalorizar as tecnologias disponíveis para cada caso. Usamos os conhecimento da medicina baseada em evidências, ou seja, o emprego das condutas com alto grau de comprovação científica, para justificar a necessidade de determinado remédio ou exame, aliado ao anseio do paciente e de sua família.

Fica aqui uma receita simples: pesar sempre os danos versus os benefícios. Empoderar nossos pacientes através da difusão do conhecimento, diálogo honesto e a busca de uma prática clínica com maior qualidade, que resiste aos abusos e modismos dos comerciais de televisão e da indústria farmacêutica.

Dra. Camila Quitério de Carvalho

• Médica de Família e Comunidade pela Universidade Federal de São Paulo
• Especialização em Saúde da Família e preceptoria acadêmica
• Professora no Centro Universitário São Camilo
• Pós graduanda em Psiquiatria